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Por que no Brasil não ocupamos o espaço público?

São as cidades que precisam ser revitalizadas ou a cultura que precisa se transformar? Saiba alguns dos motivos do espaço público ser tão inexplorado pelos brasileiros

· Cidade,Participação Social

O espaço público pode ser considerado a alma das cidades. É a partir dele que todas as interações e trocas se materializam para alimentar o espaço urbano, pois nele estão a memória, as circulações, as conexões e tudo que cria esses ambientes em que vivemos.

Atualmente o espaço público passou a ser uma dificuldade para algumas cidades ao se tornarem os vilões que se encarregam de alocar os assaltos, a insegurança, o lixo mal destinado, a degradação estrutural. Essa imagem depredada do que entendemos por esses locais de uso comum tem uma fundamentação que em parte foi criada a partir de de problemas de suporte do poder público e por outra a partir de problemas sociais e culturais.

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A conformação das cidades

O processo de criação urbana brasileira sempre foi muito fundamentado por questões irrelevantes à criação de locais com qualidade. A priorização do uso do automóvel, a criação de centralidades pautadas no trabalho e as construções monofuncionais geraram um hábito social dentro das cidades difícil de ser revertido: o de desocupação e esvaziamento.

Parte disso acontece pelo modo como as cidades foram planejadas, se expandindo radialmente a partir de um eixo central concentrador de atividades. Esse tipo de concepção restringe a funcionalidade do espaço urbano gerando o esvaziamento dos espaços em horários determinados divergentes aos das atividades terceárias. Quando se encerra o horário comercial um grande fluxo de pessoas migra das centralidades para as periferias, que, em alguns casos, agregam o uso residencial quase que exclusivamente.

O governo poderia ajudar descentralizando as atividades e gerando espaços de lazer ao longo de todas as regiões urbanas. Dessa forma, a mobilidade seria otimizada, a concentração de pessoas não ficaria tão acumulada e diversas opções e táticas de uso dos espaços livres seriam criadas a partir das identidades locais.

A cultura da apropriação

A cultura internacional e, principalmente, européia de aproveitamento do espaço público deriva em parte por questões climáticas e em parte por hábitos sociais. Lugares como Londres, Amsterdã e Paris contam com poucos dias de sol ao serem comparados ao Brasil.

Então, quando possível, os moradores dessas cidades gostam de aproveitar o tempo ao ar livre, longe de lugares fechados. Outro fator de extrema influência é a segurança que costuma ser muito maior do que nas capitais brasileiras onde as ondas de violência e assaltos costumam ser muito mais recorrentes.

Mais do que o auxílio do poder público na otimização dos espaços está o papel social de incorporação desses locais. Nem sempre a conformidade em esperar ações de cima para baixo produzem efeitos benéficos para a cidade. A intuição da população pode ser potencializada com o engajamento comunitário.

A história brasileira desse engajamento se limita a alguns grupos sociais que vez ou outra conseguem alguma resposta vinda do poder público. O contrário também acontece, quando os governos impõe um novo projeto de revitalização urbana sem propor um processo participativo de entendimento das demandas locais.

De quem é a culpa?

Dessa forma, entende-se que o processo de adesão aos espaços públicos não depende somente de um fator, mas sim da complementaridade deles. Da intenção do poder público em entregar produtos de qualidade e funcionalidade, e da comunidade em participar e demandar os equipamentos, mobiliários, jardins e espaços que gostariam.

Quando as duas coisas conseguem casar há uma melhoria significativa na qualidade de vida da região. Há a criação da sensação de pertencimento ao espaço, de segurança a partir da maior circulação de pessoas, de valorização imobiliária pela otimização citadina, de engajamento comunitário a partir das trocas locais, o que consequentemente aumenta o conhecimento e educa a comunidade, da otimização do patrimônio público e da maior participação política local.

Para onde estamos indo

A sustentabilidade das cidades depende em grande parte da manutenção da diversidade e da busca de novos modelos de assentamento priorizando a mobilidade, a compactação de usos e o adensamento de qualidade promovido pelos pensadores urbanos, arquitetos, urbanistas e pela sociedade em geral. A retomada pela escala humana é fundamental para atingir um novo modelo de usos e funcionalidades.

Diversos pensadores contemporâneos estão tentando resgatar isso. Há iniciativas inovadoras brotando cada vez mais, e eles passam desde projetos de arquitetura híbrida e cidades mais inteligentes e criativas, a clusters de pessoas interessadas em impactar positivamente as suas localidades e coletivos visando um benefício comum.

As novas formas de criar são um bom caminho a ser seguido ao se pensar no futuro. Priorizar os negócios de impacto, as novas discussões sobre inclusão social no âmbito político, as boas tecnologias aliadas ao bom conceito arquitetônico e os mecanismos de participação social podem guiar as cidades a um futuro mais sustentável, democrático e participativo.

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