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O índio e o espaço urbano

A relação entre os povos indígenas e o espaço público, curiosidades e relações entre a cultura tradicional e a urbanidade, e muito mais no texto em homenagem ao Dia do Índio.

· Índio,Cidadania,Adocao de Pracas

O dia 19 de abril é marcado nacionalmente como o Dia do Índio. No texto abaixo abordamos um pouco da importância da cultura dos povos indígenas e como ela pode indagar a forma como ocupamos a cidade e os espaços públicos.

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Heranças

A história brasileira é desde seus primórdios relacionada aos povos indígenas. Carregamos muitos costumes e características que ao longo do tempo foram se misturando ao nosso dia a dia. Nos espaços urbanos algumas características também remetem à cultura indígena, principalmente a partir da nomenclatura dos espaços públicos. Em São Paulo, muitos bairros e rios carregam nomes oriundos da cultura Tupi- Guarani, por exemplo.

Vale do Anhangabaú. Fonte: CEGSP

Partindo da área central, onde toda a cidade se desenvolveu temos o Valeu do Anhangabaú. O local, que hoje é um cartão postal de São Paulo, tem seu nome oriundo do tupi: seu significado é "rio ou água do mau espírito". E acredita-se que a região foi batizada assim devido a alguma maldade feita pelos bandeirantes contra os índios nas proximidades do rio, que hoje passa sob o eixo viário.

O parque mais famoso da cidade também tem seu nome originário do tupi. Ibirapuera: “pau podre” ou “árvore apodrecida”. Tudo isso porque a região em que o parque se encontra era um terreno alagadiço que fazia parte de uma grande aldeia indígena.

Ibirapuera. Fonte: fotos públicas.

Moema, além de ser um nome próprio designado a muitas índias na cultura tupi, é também um bairro de São Paulo que possui diversos logradouros com outros nomes indígenas. Nhambiquaras, Maracantis, Imarés, Jurupis, Jamaris são algumas ruas que constituem o bairro e marcam a história desses povos em suas placas. Diversos outros bairros, ruas, praças e locais públicos carregam essa herança: Pacaembu, Tucuruvi, Morumbi, Cambuci, Ipiranga, Pari e muitos outros são nomes derivados do conhecimento dos índios que aqui viviam e que continuam intitulando o cenário urbano.

Alguns significados

Ipiranga: (y-piranga)"rio vermelho"

Itaquera: “pedra dura” ou “pedra dormente”.

Mooca: (moo-ka) ares amenos, secos, sadios ou (moo-oca) fazer casa

Morumbi: (moru- mbi) “colina verde” ou “mosca verde”

Pacaembu: (paã-nga-he-nb-bu) "atoleiro,” ou “terras alagadas”

Pari: armadilha tupi para peixes

Tietê: "água verdadeira" ou "rio volumoso"

Tucuruvi: "gafanhoto verde"

A cidade e os índios

Segundo a Comissão Pró Índio de São Paulo, a ideia usual que a maior parte da população indígena vive em áreas rurais remotas não corresponde à realidade. Em diversos países do mundo os índios vem ocupando cada vez mais o cenário urbano. No Brasil a população indígena que reside em áreas urbanas já ultrapassa 30% em sua totalidade.

Possuímos tribos em diferentes contextos. Temos os povos isolados, que não podem ser contatados por ninguém de fora, os que estão em situação urbana, (alguns inclusive próximos às áreas de favelas), os que vivem na floresta, os que migram de região e se distribuem pelo território todo, e outros. Mas ser índio envolve sempre uma ideia geral: ter costumes próprios e um passado em comum.

Indios Guarani Mbya. Fonte: Folha de São Paulo

Duas causas principais aproximam os índios do ambiente urbano: o movimento de migração das terras de origem para as cidades e a integração de áreas indígenas pelo alcance do crescimento urbano. No município de São Paulo encontramos os dois tipos de situação. Poucos sabem mas há três aldeias Guarani localizadas na zona sul e oeste da cidade (Terras Indígenas Jaraguá, Barragem, Krukutu e Tenondé Porã), e uma grande população indígena de famílias que migraram e se distribuíram por diversos bairros.

Criança Ashaninka durante a aula. Fonte: Estadão.

As dinâmicas indígenas e urbanas

A quebra conceitual do estereótipo indígena pode ser muito benéfica em diversos quesitos. Muito do conhecimento e das formas de se habitar desses povos podem ser incorporadas quando discute-se o planejamento urbano. Esse contexto dá margem para se criar soluções referentes às ocupações desenfreadas do território urbano (expansão descontrolada), à falta de infra-estrutura de moradia e saneamento, à proteção dos recursos naturais, à ocupação dos vazios urbanos, ao fomento à cultura e diversidade, etc.

Indios Guarani Mbya. Fonte: Folha de São Paulo

Tanto as tribos urbanas quanto as que habitam as florestas e áreas rurais têm muito a nos ensinar sobre a forma de tratar o território. Respeitar os ciclos naturais, alimentar o solo que provém o alimento, utilizar de maneira racionalizada os recursos, abraçar as singularidades, respeitar a história e muitos outros hábitos fazem parte do dia a dia desses povos. Algumas dessas atividades primordiais da cultura indígena brasileira podem ser replicadas nas cidades de diferentes formas: desimpermeabilizar o solo onde possível, cuidar dos rios que correm pelas cidades, resignificar os parques e praças, criar uma comunidade ativa entre vizinhos, etc.

Território bem cuidado

O Praças é uma ferramenta que trabalha com os espaços públicos na tentativa de melhorar a qualidade de vida local e também auxiliar nesses processos de transformação urbana. Revitalizar áreas degradadas, gerar novos usos à espaços pouco funcionais, auxiliar na criação de espaços mais ecológicos pode ser uma boa forma de incorporar os conceitos que as culturas tradicionais nos relembram nesse dia 19 como objetivos para cidades mais equilibradas.

Acreditamos que a ocupação dos espaços já qualificados pode ser uma boa forma de construir cidades mais saudáveis e bem pensadas, aproveitando os recursos disponíveis de infraestrutura e de sociedade para a co-criação de áreas verdes mais interessantes. O Praças foi feito para quem acredita que diversas melhorias podem despontar a partir de um impacto positivo local, por isso trabalhamos junto com as comunidades na manutenção e revitalização de praças públicas. Convidamos todas as "tribos" a conhecer e participar dos programas de Adoção Colaborativa de praças.

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